O puxei pelo braço. Num instante, estávamos perto, tão perto, eu podia sentir sua respiração, sua pele não tão macia como de longe poderia parecer, eu sentia sua barba, sim, todo aquele pêlo percorrendo meu pescoço, foi rápido, num tempo tão curto que é incalculável, e lá estávamos nós quase que tornando-nos andrógenos, tão entrelaçados pelos braços um do outro e pronto, minha respiração começou a ofegar. Finalmente, após esse espaço de tempo tão curto, mas que pareceu-me longo por demais, senti seus lábios, seus lábios rosados, doces e cheios, não tão cheios em cima, mas com a parte inferior extremamente volumosa, numa assimetria perfeita. E eu quis mais, sim, eu quis mais, e ele dizia Eu sempre quis isso e sempre imaginei isso, mas eu não acreditava, não, me custava, era só uma questão hedonista, era só o sexo, o gosto, o orgasmo. Os orgasmos. Sentia aquelas mãos todas, eram só duas, eu sei, mas pareciam três mil, e elas percorriam meu corpo, ah, meus seios recém-formados, eu queria ser só a menina, a sua menina, e ele dizia Eu cuidarei de você e te darei todas as estrelas que ainda brilham, mas eu não acreditava, eu só queria ser sua amante, sua Margarida, que ele fosse o homem de Saigon - não sei se Saigon ou qualquer outro lugar - e nos amássemos sem amor, eu só queria isso, mas não, ele insistia em todas as mentiras, fazia questão de tentar me enganar, e então eu o repeli. Tive nojo. Do mesmo jeito que o puxei, arranquei os braços de mim. E o empurrei.
Julia Bastos
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